Qual é a história da amizade entre o cardeal Suenens e dom Helder Camara na origem do documento de Malines a que o Papa Francisco costuma se referir? 

 

 

O canonista Wilfried Brieven foi, por muitos anos, secretário pessoal do Cardeal Suenens. Nós o encontramos para saber sobre a gênese dos Documentos de Mechelen, em particular aquele escrito junto com Dom Helder Camara.

O Papa Francisco mencionou nas últimas semanas o terceiro Documento de Mechelen: “Renovação no Espírito e serviço ao homem”. É essencial entender como esses dois importantes líderes do Concílio Vaticano II tomaram essa iniciativa. Pode explicar como esses dois bispos de dois continentes diferentes foram capazes de publicar este documento?

Tudo começou durante o Concílio Vaticano II, quando nasceu sua amizade comum. Dom Helder foi membro fundador de um grupo de 20 bispos da América Latina e Europa que se reuniam regularmente. O Cardeal participou dessas reuniões. Dom Helder ficou em Bruxelas por um dia e a televisão francesa convidou os dois bispos para uma entrevista. Lá, o jornalista explicou que estava procurando uma permuta livre, uma partilha entre os dois bispos e não uma simples entrevista. Eles então decidiram que Dom Helder falaria sobre a importância da oração e que o Cardeal enfatizaria a necessidade de ação social. Como prova de sua amizade, uma das perguntas feitas a Dom Helder durante o debate foi: “Por que você não é um cardeal?” Ao que ele respondeu: “Eu não preciso deste título, eu tenho o MEU Cardeal!” Depois, ele passou a chamar Suenens de “meu Cardeal”!

Em 1967, o Cardeal visitou os sacerdotes belgas de Fidei donum no Brasil, especialmente aqueles provenientes de sua Arquidiocese. Viajou do norte a sul e parou em São Paulo e Recife. Ele ficou chocado com a incrível pobreza e injustiça social. Em Recife, Dom Helder o convidou para celebrar a Eucaristia em sua paróquia mais pobre. Ele nunca esqueceu a procissão de oferta quando uma mulher ofereceu uma banana e outra uma garrafa de Coca-Cola. Ele também visitou uma família onde uma das crianças estava morrendo. De volta à Bélgica, ele falou da coragem de Dom Helder em sua luta contra a injustiça social. Ele também mencionou a força da jovem Igreja Brasileira, esperança para a Igreja Universal. Esses contatos prepararam o caminho para o terceiro Documento de Mechelen.

Como o Cardeal Suenens descobriu a Renovação Carismática?

O Cardeal Suenens conheceu a Renovação Carismática Católica no outono (primavera no hemisfério sul) de 1972, quando amigos americanos lhe contaram sobre um movimento relacionado ao Espírito Santo. Seu lema episcopal é “No Espírito Santo”, ele sempre foi muito atento aos movimentos do Espírito na Igreja. Ele viajou para os EUA em 1973 para descobrir de dentro o que o Espírito estava fazendo em grupos de oração e comunidades carismáticas. Ele ficou profundamente impressionado, e percebeu as oportunidades, bem como os perigos, que esse movimento do Espírito poderia implicar para a Igreja. Ele imediatamente decidiu informar o Papa Paulo VI. Outra consequência dessas visitas foi sua sugestão de criar uma comissão teológica e pastoral para oferecer ajuda à Renovação e garantir sua sólida introdução à Igreja. Esta é a origem do que se tornou os Documentos de Mechelen.

Qual era o objetivo do Cardeal Suenens em publicar os Documentos Mechelen? E, em particular o terceiro, escrito junto com Dom Helder Camara?

O Cardeal tomou várias medidas para reunir teólogos e líderes da Renovação. Em 1973, escreveu um importante livro “Um Novo Pentecostes?”, no qual já oferecia orientações para a Renovação. Neste livro, um dos temas mais importantes foi a necessidade de a Igreja estar ativamente presente na Renovação para seu discernimento. Em 1974, reuniu 8 teólogos e líderes da Renovação em sua casa arquiepiscopal em Mechelen. O resultado foi a publicação do primeiro Documento Mechelen “A Renovação Carismática: Orientações Teológicas e Pastorais”, documento fundamental que influenciou a Renovação. O Papa Paulo VI apreciou este documento e pediu ao Cardeal que continuasse escrevendo tais Documentos para a orientação da Renovação. É por isso que um segundo Documento foi publicado em 1978: “Ecumenismo e Renovação Carismática: Orientações Teológicas e Pastorais”. O terceiro documento foi escrito em 1980 por Dom Helder Camara e o Cardeal. De certa forma, foi iniciado durante o diálogo conjunto na televisão francesa. Foi uma resposta a algumas críticas emitidas por cristãos envolvidos na ação social. Eles tinham medo que a Renovação fosse muito espiritual e levasse os cristãos a esquecer de suas responsabilidades sociais. Dom Helder sabia o quanto a Renovação estava sob ataque na América Latina por não investir na batalha pela paz e justiça. No prefácio do Documento, o Cardeal escreve: “Dom Helder e eu pensamos que, ao nos expressarmos juntos neste livro sobre a falsa distinção entre os cristãos – os ‘socialmente engajados’ e os ‘carismáticos’ – poderíamos talvez ajudá-los a superar certos pontos cegos e cimentar “o que Deus uniu”: o primeiro e o segundo mandamentos”. O Bispo dos Pobres fala de nossos compromissos sociais e também enfatiza a ligação entre a primazia de Deus e sua própria ação. O objetivo deste Documento é ajudar seus leitores a entender que a oração e o envolvimento sócio-político estão intimamente unidos na vida do cristão que deseja viver plenamente a integridade do Evangelho. Quando o Papa Francisco menciona especificamente este documento, ele está ciente de que os cristãos devem se lembrar desta mensagem hoje. Gostaria também de convidar os leitores da Revista CHARIS a ler atentamente este legado oferecido pelo Cardeal Suenens e Dom Helder Camara.